Princípio e fim

“No princípio era Aquele que é a Palavra”
Assim descreveu o apóstolo João.
Em “A grande arte de ser feliz”,
Rubem Alves discordou do evangelista.
Para ele, João esqueceu de mencionar que
esta palavra era de uma canção.
Diz ele: “No princípio era a música”.
Mas Rubem Alves esqueceu também
de dizer algo sobre a canção.
Está tatuado em meu braço, putra frase
do próprio. originalmente publicada
em seu “Quarto de Badulaques”:

Amar é ouvir.

Que outro motivo teria o universo para
compôr uma canção, se não O AMOR?
Alice Ruiz, esposa de Leminski
contrariando ambos afirmou:
“No princípio era o silêncio”.
Preciso discordar de todos eles.
Se o princípio era silêncio, palavra e
música, se amar é silenciar, é escrever,
é compor. Nada existia antes do amor.

Por isso afirmo, contrariando o evangelista,
o escritor e a escritora, corrigindo o gênero,
pois se era a palavra, era Ela. E se a vida se
fez, fez através dela. Toda a vida conhecida
foi gerada por uma mulher, porque a primeira
vida foi concebida por Ele e não Ela?

Registre-se:
“No princípio era Aquela que é a palavra. E a palavra era: Amor”.

“Mas ele, o si mesmo, também não tinha alegria. Por isso, aquele que é só, não tem alegria. Então ele ansiou por outro. Ele era grande como um homem e uma mulher quando se enlaçam. Ele dividiu o Si Mesmo em duas partes. Daí, se originaram marido e mulher. Por isso, esse corpo é como uma parte separada do Si Mesmo. Por isso, este espaço vazio é preenchido pela mulher – 800 a.C.” – Perceba que a partir do nascimento da nossa capacidade de racionalizar a própria existência, temos dificuldades de entender o motivo pelo qual de fato existimos. Por que existe algo ao invés do nada? Antigo questionamento filosófico. Parte de nós é mistério. E quanto mais avançamos o conhecimento científico, matemático e filosófico, chegamos a uma única conclusão. Este mistério é sempre maior do que pensávamos anteriormente. É a partir desta premissa, que buscamos respostas mais simples, menos incertas. Convencionamos que uma vida com propósito é aquela em que temos dinheiro, bens materiais, alguém que desejamos e nos deseja, uma meia dúzia de bons amigos, reconhecimento social de nossas habilidades e feitos. Estranhamente, ao alcançar este status, parece que a velha pergunta continua sem resposta. Está lá no velho livro do cristianismo, a tríade dos sentimentos humanos: fé, esperança e amor. No intuito de alcançar nossas buscas, estes três pontos parecem ser importantes. Mas Cristo deixou claro que entre eles, existia um soberano: O amor. De alguma forma estranha, convencionamos a ideia de que o amor, é um estágio que sucede a paixão, esta forma que nos atrai a outro ser. Em verdade, o amor seria a força que mantém duas pessoas juntas, quando o tórrido desejo da paixão se desfaz. Assim, relações fugazes seriam aquelas em que a chama da paixão se apagou antes de nascer o fogo do amor. Não tenho dúvidas que o que nos atrai uma pessoa é puro desejo. E ele não precisa ser sexual. Pode ser até o desejo do fim de uma solidão apenas. Drummond nos alertou quando disse que o tangível, torna insensível a palma da mão. O desejo, seja ele despertado por qualquer que seja o impulso, é sempre a vontade de se ter o que não se tem. Assim, quando se tem, deixa de ser desejo. Aquele homem que perdeu o interesse em ti, logo após o orgasmo, pobre ser, era só alguém completamente escravo do próprio desejo. Mas o amor é o contraponto do desejo? Não. O contraponto do desejo é o medo. O que faz um casal continuar junto após o término do desejo é o medo da solidão. A dificuldade de voltar para casa e se ver diante do vazio da própria existência. E para não olhar para aquela sombra escura na alma, colocamos alguém na frente. Como alguém que varre para debaixo do tapete a sujeira. O amor nada tem a ver com a vontade de estar com alguém. Aliás, o amor tem mais compromisso com a partida do que com a chegada. Minha ex-noiva era uma mulher linda, engraçada, divertida, inteligente. Quando eu a vi a primeira vez, não foi amor à primeira vista. Como alguém poderia pensar em amor se cada parte de mim a desejava? Eu nunca fui um homem clichê. Nunca pareci um cachorro no cio. Sempre fui respeitoso e gentil. Mas quando a vi eu era só irracionalidade. Lembro quando ela tirou a roupa pela primeira vez. Acho que fiquei uns cinco minutos tentanto entender que aquilo de fato estava acontecendo. Claro, estou lhe relatando isso, relembrando o sentimento daquele instante. Não sou saudosita. Apenas tenho boa memória. Lembro de um momento interessante. A paixão era algo que não parecia diminuir em nada. Talvez porque, apesar de te-la ao meu lado, eu sentia que poderia perde-la a qualquer momento. E me recordo um dia, em que fazíamos amor no ápice do desejo e da paixão. E em meio a tudo aquilo, ela parou tudo que estava fazendo e apenas me olhou. E percebi uma lágrima caindo do seu olho. E de repente um sentimento muito forte me tomou por inteiro. Algo difícil de explicar. Era como se tivesse percebido o exato instante em que o amor entrou em nós. Como uma energia da existência. Como se ouvisse a voz de Deus. Como disse, o amor não é o que aproxima duas pessoas. Mas uma força que conduz o universo. Esta força estava nos levando adiante. Não estava nos aproximando. Já éramos muito amigos, muito próximos, muito apaixonados. Se tratava dos caminhos da nossa existência e não da nossa trajetória juntos. Essa mesma energia eu senti outra vez tomar meu corpo. Foi quando ela partiu. E ao partir, no abismo da sua ausência o amor me conduziu novamente adiante. Respeitando o caminho dela. Entende que o amor não é aquilo que nos une? O amor é a força que nos conduz. O mesmo amor que faz uma mãe gerar um filho, será o mesmo que lhe afagará para entender que sua cria deve partir em busca da própria história. O que então nos faz ficar com alguém? Muitas coisas. Medo, solidão, conveniência, amizade, empatia, conformismo, oportunidade, comodidade. Já o amor, o amor é o que transpassa toda a existência humana. É a partícula de Deus que mantém o universo. Sobre aquela pergunta: Por que existe algo ao invés do nada? Existimos porque amamos. Deus é mistério. O universo é mistério. Nós somos mistério. E o mistério é o amor.

Share: