Por onde eles andaram…

Quando ele olhava para todo o espectro da sua vida, percebia que a busca por conhecimento, pela espiritualidade, pelo desenvolvimento do pensamento, por uma reatividade mais branda e consciente, não é um caminho de crescimento ou inteligência. Mas um acender de luz sobre a escuridão da ignorância. Continuaremos e terminaremos incalculavelmente tolos e desinformados.

Passou uma grande parte da vida tentando entender como e porque os sentimentos habitavam seu coração. Coração ou mente? Coração sente? Não sabia dizer nem porque associamos o coração ao sentimento do amor. Talvez, porque ele acelera diante da pessoa amada? Se questionava, mas como em muitas circunstâncias, não sabia a resposta. Sabia certamente que não sabia quase nada e tinha certeza de muito menos que isso.

Um dia já cansado de tantos desertos que atravessou, encontrou pelo caminho uma garota. Sentada na beira do caminho com o olhar vago para o horizonte, como se esperasse alguma coisa ou alguém. Com a calma e uma sutil melancolia no olhar, de quem sabe que a espera pode ser longa. A força evidente que a habitava, também denotava um considerável cansaço.

Ele a cumprimentou, ela singelamente respondeu, tinha uma voz firme e eloquente, com um sotaque engraçado, certamente não era das mesmas terras que ele. Levantou-se, sacudiu o barro da roupa, sacudiu os longos cabelos cobertos de areia, limpou um pouco o rosto e ao seu lado lentamente foi caminhando. Ela fez uma pergunta sobre sua vida e ele foi lhe contando, sem perder o passo, o que o deixava distraído.

Perguntou se ele não me importava de caminhar solitário e ele respondeu que era melhor assim. Sozinho seguimos nosso próprio ritmo e servimos somente aos próprios propósitos. Sem distrações e desvios do caminho. Ela sorriu como se soubesse de algo que ele ainda desconhecia. Afinal, ela já era uma distração.

Diante das perguntas que se seguiram, ele disse: ‘Vou lhe propor um desafio. Você acredita no sentimento de amor entre um homem e uma mulher?’. Queria pegar ela de surpresa diante da clara habilidade e agilidade nas palavras que demonstrava naquele curto diálogo. Ela apenas lhe respondeu: ‘Se você questiona a existência de algo, é porque essencialmente este algo existe de certa forma, nem que somente como questionamento’.

Ela claramente sempre tinha uma resposta rápida e com tom de obviedade. Ele continuou: ‘E você, acredita no amor?’. Ela novamente, como se já tivesse antecipado aqueles questionamentos disse: ‘Não posso acreditar em algo que é’.

Um sentimento estranho lhe invadiu a mente. Por um momento o caminho já não importava. Ele parou então, pela primeira vez depois do longo trajeto que lhe trouxe até ali. Gentilmente ele pediu: ‘Me conte mais sobre você?’. Ali ele havia percebido, que precisava conhecer mais dela, já que agora teria uma companhia para continuar a caminhada.

Aos poucos percebia que ela lhe contava sobre histórias que ele já conhecia. Lhe contava de como tinha sido dolorida sua vida. E ele só pensava que queria ter chego antes para evitar alguns sofrimentos. Mas que podia fazer se a distância era tão longa. Aos poucos ele a reconhecia em outras feições. Diferentes de outras vidas que eles se encontraram. Ele sabia que não havia começado ali. Era um reencontro e toda aquela conversa era apenas uma confirmação da identidade.

Dizem que eles continuam caminhando juntos. De mãos dadas. Dizem que é o que mais gostam de fazer: caminhar de mãos dadas. Dizem que ela continua lhe explicando sobre o amor e que ele continua lhe fazendo outras perguntas.

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