Sobre saudade…

Você não estava lá no dia que dei meu primeiro beijo.  Nem eu queria estar lá, foi um fiasco, mas tive tempo de aprender depois.

Você não estava lá, quando fiquei de fato com a primeira garota. Ainda bem, pois você não aprovaria o porre de cuba que tomei, para ter coragem.

Você não estava lá, quando eu me formei no ensino médio. Ao menos você não viu as péssimas notas que eu tirei, pois eu chegava cansado demais no colégio e as vezes ficava difícil me concentrar. A situação financeira ficou mais difícil sem você.

Você não estava lá, quando a mãe se formou em Pedagogia. Mas eu sabia que você a apoiou nesta caminhada difícil, lhe dando forças para continuar.

Você não estava lá, quando apresentei a primeira namorada para a família. Foi um grande mico, tenho certeza que você deixaria tudo mais divertido com suas piadas.

Você não estava lá, quando resolvi morar sozinho. Ainda bem, eu tenho certeza que você jamais me deixaria fazer isso. Mas eu precisava crescer.

Você não estava lá, quando fiz meu primeiro cliente importante. Que bom, eu precisava ter a certeza de que eu era capaz de fazer algo grandioso sem você.

Você não estava lá, quando eu peguei um avião pela primeira vez. Eu nunca fui espirituoso como você, mas lembrei de ti e da história que você contava sobre essa sua mesma experiência.

Você não estava lá, quando o vovô e a vovó fizeram Bodas de Ouro, quando a Sheila se formou e nem quando a Uli e o Laio se casaram. Essa eu tenho que te contar pessoalmente, quero ver a tua cara. A Uli tem dois filhos. Quem diria, hein?

Você não estava lá, nos momentos mais difíceis. Quando tudo que eu precisava era de um conselho seu.

Você não estava lá, em todas as vezes que eu terminei um relacionamento. Para me dizer que isso passaria, que relacionamentos vem e vão. E nem para dizer um: pare de chorar, seja homem.

Você não estava lá, quando resolvi mudar de cidade novamente. Refazer a vida do zero. Você certamente teria sugerido outra alternativa.

Você não estava lá, em todas as vezes que citei seu nome. Em todas as vezes que lembrei de ti. Em todas as vezes que você me fez falta.

Você não estava lá, quando a Helena nasceu. É, você virou avô. Ainda bem que você não está aqui, pois eu iria te zuar um monte do quanto você estaria velho agora. Aqueles teu cabelos pretos já eram, estariam bem grisalhos, vovô Euclides.

Você não estava lá, sentado na mesa, fazendo um churrasco, uma pizza, um quibe, vendo Jô Soares comigo, assistindo Fórmula 1 ou gritando com a tv nos jogos do Corinthians. Sei que você nunca vai me perdoar por isso, mas nunca mais tive interesse em se quer saber a escalação do time. E pouco me importa em que posição do Brasileirão eles estejam. Eu também nunca mais voltei a jogar futebol. Me desculpe por isso.

Você não estava lá em todos os momentos que eu queria que você estivesse. Mas eu sei que de alguma forma, as coisas boas que aconteceram até aqui, tiveram um dedo seu. Que todas as vezes que me livrei de algo ruim, você preferiu adiar nosso encontro, pois você sempre quis o nosso bem acima de tudo.

Aliás, me desculpe não usar meu sobrenome inteiro, resolvi abreviar para ‘Skas’, pois cansei de ter que soletrar ele em todo lugar. De me perguntarem a origem do nome. Se é polaco. De explicar que é Lituano e todo mundo me perguntar onde é a Lituania. Desculpa, mas porra pai, que droga de nome complicado (Desculpe o “porra”, mas eu já tenho 32 anos agora).

Amanhã era o dia de você ganhar um presente meu, mas como sempre, você não virá. Pelo menos economizei uma bela grana nestes últimos 15 anos.

Mas o dia em que eu for ai, eu espero de verdade que você esteja lá me esperando. Temos muita conversa para colocar em dia.

Um dia a gente se encontra de novo.

Saudades pai.

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