Poliamor

Sabe, estas pessoas que defendem poliamor? Que defendem a individualidade e a liberdade, como se qualquer forma de apego fosse aprisionamento?

Defendem todas as formas de amor e a necessidade de dividir-se ao máximo. E fazem isso com um certo ar de superioridade, como se fossem mais evoluídos. Me parecem no entanto, pessoas incapazes de se doarem de verdade à alguém, profundamente, por inteiro.

Será egoísmo ou dificuldade de se revelarem por completo? Quando você se fragmenta em mil pedaços, fica mais fácil desviar a leitura do todo. E nós somos o todo, o bem, o mal, a calma, a ira, o desapego, a ganância, o preconceito, a felicidade e a tristeza.

Não existe nenhum erro em querer jogar sua âncora em algum lugar qualquer. Em querer aportar. Em pousar sobre algo. A vida é sim um movimento constante, um eterno caminhar. Mas isso não significa que escolher em fazer essa caminhada ao lado da pessoa que amamos, seja uma forma de tornar a caminhada mais custosa.

Basta você se certificar que a pessoa que esteja ao seu lado busca uma proteção mútua. Assim, pode não ser uma caminhada rápida, mas será facilmente mais longa. Na oposição de sentimentos apequenados, de egoísmo, de grosseria, de desamor, de posse, de inferiorização, acreditamos que o distanciamento de qualquer possibilidade de se aninhar, vira prisão.

Ninho, não é gaiola.

Todos precisamos de um lugar para voltar. Independente de quão distantes sejam os caminhos que viram suas pegadas. Até que seja apenas como ponto de referência, precisamos ter um ponto de partida para medir o que de fato é estar longe. Longe do que? De quem? De onde?
Amor não é algo continuo e plural, onde você pula de galho em galho tentando experimentar apenas o novo, o inédito.

Proust sintetizou: “A verdadeira viagem do descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, mas em ver com novos olhos.”

O amor vem, diferente da paixão, para criar raízes, que sustentam. Não amarras, que sufocam. Ele vem para se fazer presente nos momentos difíceis, pouco românticos, nada empolgantes. O amor se destaca na doença, na tristeza, na solidão, na falta de dinheiro, no desespero.

Em um voo solo, contínuo e sem direção, passamos a acreditar que qualquer repousar seja estagnação. Pequena falha de interpretação, miopia ótica, estreitamento de nuances. Até quem pensa navegar em mar aberto, talvez não perceba que passou a vida inteira à deriva.

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