Âncoras…

Durante toda minha vida fui porto seguro. Ali na beira do mar da vida, resolvi repousar a espera de alguém que na solidão de seu barco, resolve-se aportar em busca de terra firme. Sempre achei romântica esta imagem de mim. Uma mão estendida a quem quiser que passasse.

Porém, ainda que diante do movimento das marés, fiquei estático vendo o tempo passar por mim. Grandes ondas tentaram de todas as formas me tirar dali, mas resisti, firme diante da minha vontade de ser não só porto, mas de fato seguro. Os anos se passaram, a madeira se desfez e ainda que na tentativa de me manter inerte, esqueci que tudo se desfaz nas brumas do tempo.

Do velho porto, sobraram alguns pedaços de ferro. Destes restos de mim, de pedaços distorcidos e enferrujados, que nem ao longe lembrariam o antigo porto, me fiz âncora. Ainda incapaz de entender a ineficácia e irrelevância de ser um lugar seguro. Não sou mais um lugar para aportar, para sentir a terra firme e para então partir. Deixando para trás, lembranças daquelas pessoas que passaram por ali. Não tenho mais um lugar onde ficar, não tenho endereço de mim, não sei nem ao certo onde vou parar.

Vou seguindo as marés, no rumo das correntes, sendo levado aonde o vento sopra mais forte. Me perdendo em um oceano de possibilidades, na vastidão da solidão, nas profundezas dos próprios medos, no espaço entre céu e terra. Sou âncora, sou segurança, sou firmeza, sou esperança nos desaventos, sou salvação nas tormentas. Ao contrário do meu passado porto, hoje sigo adiante em mar aberto.

Image by Pexels from Pixabay

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