Amores líquidos?

Bauman já falava em ‘Amor líquido’, sobre a fragilidade das relações humanas. E parece que cada dia essa realidade se torna mais evidente e comum. Acho que definitivamente nasci na época errada. Tenho dificuldade de lidar com as relações superficiais e circunstanciais.

Não, eu não me envolvo profundamente com qualquer pessoa. E por querer viver relações mais profundas, tenho uma seleção que por vezes até aparente um ar de descaso ou desinteresse.

Lá em ‘Fernão Capelo Gaivota’, o best seller de Richard Bach, Fernão é uma gaivota que em uma campanha publicitária seria classificado como ‘Think outside the box’.

Ele queria mais da vida. Foi Fernão que afirmou: ‘Vê mais longe a gaivota que voa mais alto’. Queria transbordar os limites impostos por seu bando e por sua natureza de gaivota.

Muitas pessoas referenciam este livro em defesa de uma ideologia libertária. 
“Fernão Capelo Gaivota é sobre desapego”, afirmariam.
“Fernão lida com a solidão e a necessidade do desdobrar sobre si próprio, da importância de viver bem consigo mesmo, independente da opinião do bando”, explicariam.

Fato que certamente distorcemos nos distanciando consideravelmente do possível sentido original.

Para mim, qualquer tentativa de ser alguém melhor, serve única e exclusivamente para ser melhor para aqueles que amamos. Dedicar-se totalmente à alguém, seja um amigo ou um grande amor, não tem qualquer relação de erro ou perda. Ao contrário, temos muito a ganhar.

Diz Bach em uma passagem:

“Uma alma gêmea é alguém cujas fechaduras coincidem com nossas chaves e cujas chaves coincidem com nossas fechaduras. Quando nos sentimos seguros a ponto de abrir as fechaduras de nosso coração, surge o nosso eu mais verdadeiro e podemos ser completa e honradamente quem somos. Cada um descobre a melhor parte do outro”.

Sempre achei linda esta definição do amor. Mas nunca pensei que pudesse ser verdadeira. Achei no entanto, se tratar de uma romanceada parte, destas histórias que só existem nos livros.

Fernão para muitos era uma gaivota de espírito livre, sem qualquer algo ou alguém que o importe além de si mesmo.

Para mim era uma gaivota que queria mais. Não de si, mas de todos que amava.

Liberdade não é solidão. 
Liberdade não é a falta de envolvimento e entrega.
Liberdade é fazer o que se quer, quando se quer. 
Às vezes podemos quer a liberdade de nos prender.
“É um estar-se preso, por vontade”, já disse Renato.
Querer ficar em um só lugar.
Querer apenas uma única pessoa, por toda uma vida.
Está lá, perdido entre suas páginas:

“Amar é doar-se”

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