O silêncio do amor…

Levava em seu braço o que para ele era a síntese da vida. Exato dez letras que diziam: ‘Amar é ouvir”.

A frase cunhada por Rubem Alves, que tanto ensinou sobre esse nobre sentimento humano, nos explicou também: “O amor começa na escuta e morre na não escuta”.

Grande parte das coisas que escrevia, tinham o amor como tema. Criou teorias, experimentou senti-las, mas da busca só encontrou um lugar ainda mais só. Escreveu em seu caderno de anotações: “Eu não sei nada sobre o amor”.

Uma constatação ou uma súplica?

Dizem que quem sabe faz e quem não sabe ensina. Obviamente que não é uma desconsideração com quem dedicou sua vida a docência. A ironia por trás da frase nos enfatiza aqueles que falam sobre o que não praticam.

Escreveu no mesmo caderninho que parecia um artigo de Bilbo, o bolseiro: “Ela o buscava em cada frase, não percebeu que ele se escondia nas entrelinhas”.

Que são as entrelinhas se não silêncio? Dois anos de silêncio separaram ela e ele, desde o dia que compartilhou suas primeiras frases. Ele no entanto, habitava o silêncio e os intervalos de tudo que nunca disse.

O acaso os colocou frente a frente. E como escrito em um antigo livro: “Veremos face a face. Agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido, como em espelho”. E ali, ele a viu. Com as mesmas cicatrizes, com os mesmos recomeços, com a mesma coragem. Em comum a ausência da lamentação. Tudo era ensinamento.

Enfim entendia as diferenças: eram duas pessoas, mulher e homem, forjados no mesmo fogo, feitos do mesmo metal. Suportaram a brasa, as marteladas e os choques da tempera. Eram mais fortes.

Nunca falaram sobre gosto musical, o prato favorito, a cor favorita e seus sonhos futuros. Nada do que um dia lhe interessou como comparação ou requisito de avaliação, serviam agora. Porque o amor não se compara, ele se reconhece.

No início falaram muito. Tentaram provar um ao outro que o que viviam era único. Depois queriam contar para os outros o que sentiam. Não por vaidade, mas para dizer que as pessoas não devem desistir.

Aos poucos as mensagens foram ficando cada vez menores.

Ficou preocupado. Será que estavam deixando de dedicar tempo ao amor? Mas o sentimento dentro deles ficava cada vez maior e mais forte.

Entendeu que as palavras foram perdendo a importância, porque agora interessava o silêncio. Descobriu que o amor está de fato onde se abrigava: nas entrelinhas. Onde nada precisa ser dito. Não precisavam de respostas, pois não haviam perguntas, dúvidas, questionamentos.

Na vontade de se ouvirem, ambos permaneceram em silêncio. Ele a encontrou em tudo que a silenciaram. Ela a encontrou em tudo o que ele disse e ninguém havia entendido.

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