Olhe para dentro de você…

Tenho refletido muito sobre a vida nos últimos nove meses. Simbólico isso: ‘nove meses’. Uma gestação praticamente. E talvez seja mesmo um novo nascimento. Não que eu tenha mérito maior que qualquer outra pessoa, mas foram muitas perdas. Perdas? Livramentos? Um dia ainda saberei…

Mas o assunto que mais me vem a mente são as relações amorosas. Buscar o isolamento após o término de uma relação foi essencial para um olhar mais profundo sobre mim. Um olhar sobre minhas próprias falhas. Ou seriam incapacidades?

Passei a vida em busca do grande amor. Vivi uma vida tão solitária de amigos, família e relacionamentos, que acreditei que o fim desta solidão estaria em alguém. Idealizei, fantasiei, sonhei, desejei e me entreguei a viver histórias que renderiam um bom romance.

Prestei atenção aos detalhes. Valorizei as minúcias. Dediquei meu tempo, minha atenção e meu carinho. Agradecia todos os dias por estar ali. Mas toda essa tentativa de ser um homem perfeito, logicamente se mostrou inútil. Qualidades não compensam defeitos. Então busquei entender os mecanismos. Vasculhei as memórias. Revisitei os detalhes, tentando entender o motivo de minhas relações começarem como idolatria e acabarem em esquecimento.

Será que não era eu que criava meus próprios fantasmas? Pensei muito tempo, mas não era o suficiente. Ainda estava preso à muitos pensamentos enraizados em mim. Então a vida resolveu me tirar tudo, para eu entender que precisava começar do zero. Refazer minha percepção do amor.

Minha conclusão empírica é que aquilo que entendemos poir amor romântico, talvez seja apenas um ato de covardia. Buscar em alguém o preenchimento daquilo que nos falta. Desta sensação que todo ser humano possui, de se sentir incompleto. Desta insatisfação permanente, projetando em coisas e pessoas, o vazio que na verdade está dentro de nós.

Talvez isso soe igual a muitas coisas que você já ouviu sobre amor. Mas a teoria sempre foi diferente da prática. Aquela falha humana de falar muito e praticar muito pouco. Na busca da prática de minhas palavras e encontro nos outros resistência, indignação, incompreensão.

Não acredito mais em amor romântico, ou ao menos, não acredito neste formato de amor que projetamos. Quando você consegue se afastar de toda e qualquer expectativa e necessidade, passa a ser um observador eficaz. Olhe para os lados, estão em todos os lugares. No mercado, na balada, na igreja, nas ruas. Casais que não se olham, que se maltratam, que se anulam. Homens e mulheres visivelmente insatisfeitos. Mal conseguem fazer uma compra de mercado sem uma discordância. Brigam até pela quantidade de fatias de queijo e presunto que vão levar. Do que importa?

E tudo isso, por algo que dizem ser amor, quando na verdade, na maior parte dos casos é puro medo e acomodação. Medo de terminar uma vida se sentindo fragmentado e incompleto. Acomodados com o pouco que acham necessário. Medo de olhar no espelho e perceber todas ausências de si mesmos.

Image by Pexels from Pixabay

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