A frieza do tempo…

Atualmente, reflete-se muito sobre o comportamento social. Por algum motivo buscamos entender se as relações sempre foram assim ou se estão cada dia menos aprofundadas. Apesar de estar longe de uma conclusão, que talvez nunca chegue, tenho um palpite: sempre foram assim.

As pessoas me veem escrevendo, desenhando, fotografando, buscando algum tipo de gentileza, empatia e generosidade e me procuram para desabafar ou obter uma companhia temporária. Em geral os contatos não passam de algumas poucas frases que variam em quantidade e profundidade. Invariavelmente são acompanhadas de períodos de silêncio.

No passado me sentia importante para estas pessoas, por acreditar que eu era um lugar de conforto e refúgio, mas não passei de algo além de uma pessoa qualquer e irrelevante, assim como enxergam todas as outras. É só distração.

A diferença é que hoje eu não me importo mais. Aceito suas atitudes com complacência. Não me afeto com a desimportância que concedem às relações interpessoais. Obtém de mim apenas o que oferecem. Sou raso com quem é raso e indiferente com quem é indiferente.

Não quero provar um ponto de vista. Escrevo para mim mesmo, as quatro da manhã, sabendo que isso prejudica a propagação deste conteúdo. O resultado que espero não são curtidas, mas unicamente meu prazer pessoal em mover meus dedos pelo teclado, materializando meus pensamentos, apenas como exercício do intelecto. Me divertindo com o processo, com os cerimoniais que criei para mim. Ouvir uma música, acender uma vela, sujar as mãos de tinta, acender um incenso, passar um café ou fumar um cigarro.

Não me interessam os resultados, os feedbacks. Não me afeta o impacto que isso causa no outro, obviamente, desde que não prejudique ninguém, não me importa o resultado final, mas tudo que aconteceu antes. Não importa o texto, a foto, o desenho, a arte, o quadro. Me importa única e exclusivamente o tempo que dediquei para realizar uma tarefa e o quanto aprendi com ela.

Das conversas fugazes em redes sociais, não espero nada. Não quero ser nada para você. Não quero provar que sou um cara legal. Não quero mudar sua opinião. Não espero ser lembrado. Me tornei esquecimento para pessoas das quais dediquei carinho, atenção, tempo.

Se você se contenta com pouco, não posso fazer nada diante disso. Eu preciso de mais. Aprendi que a única forma de ter este algo a mais é não nos repartirmos em infinitos fragmentos, entregando um pouco de nós a cada um que deseja ocupar seu silêncio temporário, um domingo de chuva tedioso, o alívio de uma angústia passageira e até uma noite etílica em uma festa qualquer.

Desculpe não me importar, sou apenas reflexo do que observo. O melhor de mim não estão nestas palavras, não foi registrado no Instagram. Se você gosta de qualquer uma destas coisas, mal pode imaginar tudo o que você nunca soube que existia, tudo aquilo que ninguém pode ver, tudo aquilo que vivencio na minha presença.

Qualquer interpretação que você faça destas palavras é aquele minúsculo pedaço que desponta na lâmina d’água do oceano.

Na frieza do tempo e das pessoas, descobri meu próprio Iceberg.

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