Branqueando o serro…

Há quatro meses eu li um pequeno trecho do Osho sobre a morte do ego. Da importância de enfrentar o isolamento e a solidão. E o fiz. Nem sei bem se intencionalmente ou de forma irracional, mas eu sabia que eu tinha que morrer. Esta versão de mim que a vida moldou, tinha que morrer para que alguma coisa nova pudesse renascer. Um Eu desconhecido.

Me isolei e enfrentei toda a dor que eu estava sentido sem fugir de nenhuma lágrima. Revisitei toda minha vida, todos os erros, todas ausências de mim mesmo, todos os momentos em que tentei ser algo para alguém, todas as vezes que anulei minha caminhada para viver o sonho alheio.

Chorei muito. Sem sentir um alivio qualquer. Mas ainda havia a promessa de que este ego morreria em mim.

E algum momento impreciso, parei de rezar. de acreditar, de chorar, de esperar, de amar. Senti a morte em mim. Não física, mas a morte dos medos, da angústia, do idealismo. Assim como Nietzsche nos propõe em seu Amor Fati, simplesmente resolvi aceitar a vida como ela é e as pessoas como elas são.

Um completo torpor da busca ideológica por tudo que a vida não é. Abandonar o desconforto de perceber que o mundo é ilógico e que as pessoas mais próximas de nós podem ser as mais cruéis. Não existe dor maior que o abandono daqueles que amamos. Mas foi neste abandono que sinto que começo a me reconhecer no espelho. Começo enfim e aos poucos, reconhecer este homem no reflexo, já com cabelos brancos e tão diferente da última vez que me lembro de saber quem eu era na adolescência.

Estranhamente, e isso nunca conseguirei lhe explicar fundamentalmente, quando você aceita a vida com todas as suas tortuosidades, parece que ela enfim resolve lhe recompensar de alguma forma. Talvez quando você aceita a vida, ela resolve lhe aceitar de volta. Não é conformismo, é aceitação.

Diferente de Nietzsche, não acredito que este Amor Fati precisa renegar a existência de Deus. Mas possivelmente renegar a idolatria de um Deus que definitivamente não é como queremos, não age quando queremos, se faz silêncio quando esperamos ouvir sua voz. Se eu amo Deus como Ele é, preciso aceitar sua forma de agir.

Aceitar. É tudo que a vida espera de você. Aceita-la no seu ineditismo, na sua capacidade de nos causar tristeza e alegria. Aceitar a vida no seu pacote completo. Das lágrimas aos sorrisos. Do nascimento a morte. Da ausência ao amparo. Aceitar que sou somente mais um e que meus problemas não são maiores que o de nenhum outro ser que habita essa terra. De nenhum que nela já esteve. Quando você aceita cada dia e vive como ele se apresenta, entende que dor e amor fazem parte da mesma coisa e assim talvez você comece enfim a viver.

A dor passa. A felicidade passa. Mas retornam, aleatoriamente. O que mais importa é que você as aceite com a mesma receptividade. Hoje em minha vida, não me ausento de nada. Tudo é bem vindo em meu coração.

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